O Fim do Emprego

Se acreditarmos nos autores Jeremy Rifkin e William Bridges, o emprego tal como o conhecemos está (já estava) em extinção antes do fim do século.





Um pouquinho de contexto

Está nos jornais diários: o Brasil tem cerca de 13 milhões de desempregados. Essa tragédia nacional que fragiliza famílias de Norte a Sul, se olhada como uma fotografia, um instantâneo de agora, pode parecer um fato isolado no tempo, fruto da crise econômica. Mas quando releio a resenha sobre dois livros que escrevi em junho de 1996 para a EXAME, percebo que, independentemente da crise, estamos diante de um drama que vem sendo anunciado há pelo menos duas décadas. Se acreditarmos nos autores Jeremy Rifkin e William Bridges, o emprego tal como o conhecemos está (já estava) em extinção antes do fim do século. Talvez seja hora de pararmos de olhar a fotografia de curto prazo e passarmos a olhar essa história como um filme de longa duração. Na época do texto, os robôs já eram ameaça. Atualmente, estamos juntando o físico ao digital e ao biológico para enquadrar as fábricas na 4a. Revolução Industrial. E os robôs continuam ceifando vagas. Já que estamos contextualizando, aí vai um número chocante: a General Motors, citada abaixo, tinha 365 mil funcionários. Hoje, tem 170 mil. É ou não uma reflexão que já deveríamos estar tendo há muito tempo?

Você era feliz e não sabia!

(EXAME – Junho 1996)


O fim do emprego é o assunto da moda. Nos últimos tempos, jornais e revistas têm dedicado boa parte de seu espaço a noticiar e explicar por que os empregos estão mudando, em alguns casos e, desaparecendo em outros. Estariam mesmo? Os livros, O Fim dos Empregos, de Jeremy Rifkin, e Um Mundo Sem Empregos, de William Bridges, tentam provar que sim.

Publicados aqui pela Makron Books, os livros se complementam. O primeiro faz uma análise histórica do emprego, sob as lentes de um economista pessimista, o outro é um manual de como sobreviver num mundo sem empregos.

Bridges gasta as 269 páginas do seu livro tentando ajudar executivos assustados com a possibilidade de ficar sem trabalho. “Quer você tenha emprego ou não, precisa desistir de todas essas coisas (os valores que acompanham o conceito de ter emprego), porque elas não vão ajudá-lo a enfrentar o que está para vir”, diz ele. Bridges é consultor de empresas como Intel, Apple e Procter & Gamble.

Rifkin enverada por um outro caminho. O autor de O Fim dos Empregos não segue pelo caminho fácil da autoajuda, não dá conselhos sobre como salvar o emprego nem de como sobreviver num mundo sem carteira assinada. Esse é um livro para quem prefere entender como chegamos até aqui.

Rifkin trata o assunto com a indispensável preocupação social que o tema merece: “O fim do trabalho poderia significar a sentença de morte para a civilização como a conhecemos”.

Pode-se argumentar que nossa história recente está cheia de exemplos de momentos de desemprego profundo. Vide a crise de 29 nos Estados Unidos. Por que agora é diferente? “No passado, quando uma revolução tecnológica ameaçava a perda em massa dos empregos num setor, um novo setor surgia para absorver a mão-de-obra excedente”, diz Rifkin.

No início do século, a indústria emergente contratou os milhares de trabalhadores deslocados pela mecanização da agricultura. Nas décadas de 50 a 80, o setor de serviços fez esse papel. Na análise um tanto catastrofista de Rifkin, hoje, ao contrário, todos os setores estão sucumbindo, vítimas da reengenharia, do downsizing e da automação.

Embora o emergente setor do conhecimento esteja em expansão, ele não é capaz de empregar todo mundo, de acordo com ele, esse seria um setor adequado a uma pequena elite de profissionais, criadores, manipuladores e abastecedores do fluxo de informação. Rifkin chama a esses profissionais de os novos aristocratas.

Apesar de se deter muito nos Estados Unidos, a análise de Rifkin também é interessante para os brasileiros, afinal, o desemprego não está crescendo aqui também? No único momento em que cita diretamente o Brasil, Rifkin o faz para explicar por que novos investimentos não resultam necessariamente em mais empregos. O problema, segundo ele, é que muitas fábricas só criam uns poucos empregos para a nova elite de trabalhadores de alta tecnologia.


Robôs


A Ford, por exemplo, investiu 800 milhões de dólares para produzir o Fiesta em São Bernardo do Campo. Com a reforma da fábrica, o número de robôs saltou de seis para 96, os ganhos de produtividade foram enormes. Cada um dos 5 600 trabalhadores está produzindo 26 carros por ano, antes do Fiesta, a média per capita era de 15. O livro de Rifkin é recheado de exemplos como esse, como acontece em nove entre dez livros de administração.

O fim dos empregos também apela ao exemplo da multinacional Asea Brown Boveri, a ABB. A certa altura, depois de contar que a ABB havia demitido 50 000 pessoas, Percy Barnevik, presidente mundial do grupo, pergunta: “Para onde vão todas essas pessoas (desempregados)?” Rifkin acredita ter encontrado respostas ao problema do desemprego, pelo menos nos EUA.

Elas seriam a combinação da redução de jornada de trabalho, da redução das horas extras e do pagamento de salários para voluntários de entidades sem fins lucrativos. Será que a questão é tão simples assim? “Estamos todos juntos nisso”, diz Bridges.

Um Mundo Sem Empregos é um livro para quem leu Rifkin e se enquadra na categoria capaz de disputar as vagas que sobrarão no mercado de trabalho. Para esses, Bridges traz um consistente e didático guia de carreira. Daqui para frente, diz ele, a estabilidade no emprego dependerá de três fatores.

O primeiro e fundamental é a empregabilidade, cujo conceito EXAME já tratou várias vezes em suas páginas. Esse foi um dos temas, por exemplo, da reportagem de capa da edição de 22 de maio, com o título “Você tem medo de perder o emprego?”.

O segundo fator é que todos devemos nos comportar como fornecedores de trabalho, não importa para qual cliente. Por último, é necessário aprender tudo de novo. E que não se espere ajuda externa. As empresas estão preocupadas em sobreviver num mundo globalizado e competitivo. Nele, o importante é a produtividade. Tampouco os governos podem ajudar.

Suas ações estarão voltadas para os problemas sociais provocados pela grande massa desempregada, não para os poucos que ainda têm trabalho. “Devemos agir individualmente em nosso próprio benefício”, diz Bridges. O mundo sombrio pintado por Bridges e Rifkin pode ser exagerado.

Como se sabe previsões pessimistas, alarmistas, ajudam a vender livros, mas reconheçamos: se o emprego não está acabando, ele pelo menos está mudando. O maior empregador dos Estados Unidos hoje é a Manpower, uma empresa fornecedora de mão-de-obra temporária, que emprega 560 000 pessoas. A General Motors, uma das maiores empresas do mundo, emprega 365 000.

O trabalhador temporário ganha entre 20% e 40% menos que os fixos exercendo a mesma função. Rifkin chama aos temporários de empregados just-in-time. Também estão crescendo os empregos de meio período. Na Inglaterra, eles já são 40% do total de vagas.

O que Rifkin deixa claro é que a questão do emprego não se limita às quatro paredes dos escritórios ou das fábricas. Ela significa uma mudança radical naquilo que a sociedade vem acreditando desde o início da revolução industrial.

Durante toda a era moderna, o valor das pessoas tem sido medido pelo seu valor no mercado de trabalho. “Precisamos encontrar novas maneiras de definir o valor humano e os relacionamentos sociais precisarão ser explorados”, diz Rifkin. Talvez seja hora de pôr mãos à obra.

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